top of page
Buscar

Atualizado: 23 de jul. de 2022


ree
Samara veio a Romênia através de uma bolsa de estudos e mora no país desde 2011. Foto: Gabriela Abreu

Samara Indi tem 33 anos, é formada em Direito pela Universidade de Fortaleza e, nas horas vagas, cria conteúdo para sua página no Instagram. Ela sempre teve o desejo de ir para fora do Brasil e iniciou a busca por uma bolsa de estudos em 2007. A princípio, havia considerado Portugal e Inglaterra, mas como na mesma época ela conheceu Vlad, seu atual marido e cidadão romeno, mudou a bússola em direção a Romênia. Em 2011, Samara teve a bolsa de mestrado em Direito Internacional Público aprovada e se mudou para Bucareste.


A Romênia era um destino inusitado para ela, porém Samara adotou uma atitude positiva na situação. “Eu só vou ter uma opinião quando eu chegar lá. Eu não vou deixar uma oportunidade dessas escapar, de estudar, ficar com a pessoa que eu amo porque as pessoas tão vindo cheia de coisa”, conta. O programa que trouxe Samara à Romênia se chama ‘Study in Romania’ e oferece bolsas de estudos para cidadãos não europeus com o objetivo de promover o idioma romeno e promover o país para estudantes. Apesar de ter ido ao país para estudar por um ano, após o fim do mestrado, ela conseguiu um emprego e decidiu ficar.


Assim como todo brasileiro vivendo em terras estrangeiras, a advogada enfrentou desafios de estar longe da família. Ela tem uma sobrinha pequena e a viu crescer à distância, mas comenta que não se arrepende da decisão. Em 2014, ela teve um anseio de retornar ao Brasil que, em vez de fazê-la sentir melhor, apenas lhe deu mais certeza de que não queria morar em terras brasileiras. “Quando cheguei lá, foram mil maravilhas nos primeiros três meses. Visitei todo mundo, matei a saudade e comecei a ver a realidade que é muito diferente. A tranquilidade de andar na rua que eu tinha aqui [na Romênia], não tinha mais”. Além disso, Samara percebeu que as pessoas ao seu redor haviam seguido em frente com suas vidas. Sua mãe, que por muito tempo foi dependente dela para fazer certas tarefas, havia se habituado a executá-las sozinha e isso a fez pensar que haveria perdido uma boa oportunidade na Romênia se ficasse no Brasil. Depois de um ano e meio, retornou para o país e hoje, “o Brasil é só para passar férias”.


"A tranquilidade de andar na rua que eu tinha aqui [na Romênia], não tinha mais”. - Samara sobre seu retorno ao Brasil, em 2014.

Samara também passou por dificuldades para se adaptar à Romênia. “A primeira coisa que me impactou foi o comportamento das pessoas, elas são diretas ao ponto que beira a falta de educação, falta de respeito”. Além disso, enfrentou alguns episódios de machismo e racismo na capital. Ela conta que foi a um clube de dança e escolheu um parceiro. Ao conversarem sobre suas profissões, o homem ficou surpreso quando ela contou que trabalha com finanças, pois ele achou que Samara trabalhava com strip tease. Outro caso foi quando estava em um shopping próximo a sua casa e saiu correndo para pegar o ônibus. Um grupo de adolescentes estava próximo, e ao vê-la passar, começaram a fazer sons de macaco. Por isso, hoje em dia, quando está sozinha, prefere adotar uma atitude mais antipática a fim de não atrair certos comportamentos.


Apesar dos desafios, os pontos positivos de vida no leste europeu ainda compensam sua permanência no país. Em sua opinião, as oportunidades de emprego na Romênia são melhores que no Brasil. “Comecei a trabalhar na área financeira sem ter experiência nenhuma. Eles dão treinamento e ajudam você a crescer na empresa. Até mudar de carreira aqui é mais fácil”, comenta. Ao mesmo tempo, Samara passou a criar conteúdo nas redes sociais para fazer com que mais pessoas conhecessem a Romênia. Iniciou seu trabalho no Youtube, mas hoje prefere o Instagram. “A interação no Instagram é maior e, no Youtube, as pessoas não acompanhavam. Comentavam e depois desapareciam”. Ela percebeu que, no Instagram, eram sempre as mesmas pessoas que curtiam suas postagens e sentiu a abordagem do público mais amigável.


O vídeo mais assistido no canal de Samara tem 33.000 visualizações, onde ela conta sobre seu relacionamento com Vlad.


Samara não pensa nas redes sociais como fonte de renda, pois não tem tempo suficiente para se dedicar às plataformas. “Eu sou uma pessoa que, às vezes, eu tô muito ativa e tem horas que eu preciso de uma pausa”. Porém, aproveita as facilidades da tecnologia para se manter próxima à família. “Eu ligo para a minha mãe todos os dias, nem que seja para falar 5 minutos”. Ela se sente satisfeita com a vida que construiu na Europa e, mesmo com a saudade, diz que “não tem o que fazer, tem que lidar. A decisão foi minha de vir pra cá, de querer ficar, tem que encarar”.

 

Atualizado: 24 de out. de 2022


ree
Eliana veio a Romênia em 2018 e viveu uma história de aventuras. Foto: Eliana Torres/Arquivo Pessoal

Eliana Torres tem 46 anos e é missionária na igreja cristã protestante e motorista. Sua trajetória é diferente de todas as histórias contadas aqui até então. Porém, o fator decisivo de sua trajetória foi o relacionamento que construiu com Deus. Quando pequena, Eliana questionava o porquê de todas as coisas. “Eu queria saber por que as coisas existiam, eu tinha curiosidade como toda criança. E a minha mãe falava que tudo foi Deus quem criou”. Mas assim como toda criança, ela não entendia o que era esse Deus até completar seus 21 anos quando as respostas fizeram sentido para ela.


Aos 20 anos de idade, ela foi diagnosticada com hipertireoidismo e, na época, precisou tomar nove comprimidos por dia apenas para sustentar seu coração. Em meio a tantos anseios, em uma de suas orações, pediu a Deus que acabasse com sua vida, mas teve uma visão que mudou seu trajeto. Daquele dia em diante, pediu a Deus que não fosse levada por ele ainda e que dedicaria mais tempo a sua fé. Foi nesse período que ela encontrou a Igreja. Eliana comenta que antes de alcançar a vida missionária, sua conexão com a igreja sofreu altos e baixos. Entretanto, ela voltou e se firmou na igreja aos 36 anos, quando encontrou a igreja Videira, uma igreja em células. Aos 42 anos, após ter sido desligada de seu emprego, surgiu na igreja as missões em Roma, na Itália, uma oportunidade para pregar a palavra de Deus em outro país. Após uma experiência no Vaticano, ela teve certeza do seu chamado e propósito e que gostaria de fazer aquilo para o resto de sua vida. O que ela ainda não sabia era que seu destino final não era nas terras italianas, mas sim, nas romenas.


Após retornar da Itália, tentou aplicar para o visto e foi surpreendida quando o mesmo foi negado. Na célula em que fazia parte, havia um grupo que orava pela Romênia e estavam se preparando para viajar ao país. Eliana foi convidada a se juntar a eles para orar e decidiu pesquisar mais sobre a cultura do país. Nessas pesquisas, deparou-se com o grupo no Facebook de brasileiros na Romênia e encontrou uma oportunidade de emprego. Ao divulgar para os outros membros do grupo de oração, ninguém se encaixava na oportunidade, exceto ela mesma e mais uma moça que tentou, mas não foi aprovada. Então em conversa com seu pastor, passou a considerar o país como uma alternativa.


Eliana veio a Romênia com o objetivo de ser missionária, porém precisava de um emprego para oferecer o visto e mantê-la lá. Foi por isso que aceitou a oportunidade de trabalhar em uma pâtisserie na cidade do Județ de Piatra Neamt. O que ela não esperava era que após duas semanas, seria demitida com a justificativa da chefe de que “os produtos brasileiros não foram bem aceitos na Romênia”. Como forma de ajudar Eliana a permanecer no país, por indicação da antiga chefe, foi para Iasi para trabalhar em outra confeitaria, dividindo o apartamento com duas outras brasileiras. Quando questionada sobre quais foram os maiores desafios de se mudar para a Romênia, sua resposta foi: morar com duas brasileiras e a exploração no trabalho. O estilo de vida das duas mulheres era completamente diferente do seu e muitas das vezes elas voltavam para casa embriagadas. “O contexto delas foi muito difícil pra mim. Era algo fora do padrão”.


Em relação à exploração no trabalho, ela fala que isso se deu principalmente por ser estrangeira. “Quando você tá num país estrangeiro, você sempre será estrangeiro”, explica. “Infelizmente tem pessoas que não respeitam. Vão te ver como mão de obra barata, alguém que eles podem explorar. A minha maior dificuldade foi me sentir explorada. Sem ter respeito com a pessoa. Comer? Pra que comer? Não precisa parar pra comer.”


Após o fim de seu contrato, um pastor romeno lhe ofereceu uma oportunidade de emprego na cidade de Timisoara, há 17 horas de trem de Iasi. O próximo capítulo de sua vida começa com a ida para o Oeste da Romênia, para trabalhar em um clube em diversas funções, desde limpeza a ajudar na organização de casamentos. Com a chegada da pandemia, o clube pausou suas práticas e Eliana vivia apenas do auxílio do governo. Apesar de achar que a exploração teria acabado no emprego anterior, passou por mais uma situação quando a esposa do dono do clube lhe ofereceu um trabalho de empregada em sua casa, com a justificativa de que o auxílio do governo havia se encerrado e ela precisava voltar ao trabalho. Com receio de ficar sem o visto de trabalho e ter que voltar ao Brasil, Eliana aceitou a proposta e com uma casa de três andares para cuidar, agravou um problema sério que havia na coluna, a impossibilitando de andar e, consequentemente, trabalhar. Em meio a todos esses desafios, sua mãe lhe pediu várias vezes para retornar ao Brasil, mas ela comenta que decidiu ficar na Romênia por uma resposta simples: “Deus não falou para eu voltar”.


Eliana promovendo o seu livro 'Vestes Rasgadas', que conta os desafios enfrentados na Romênia. Foto: Eliana Torres/Arquivo Pessoal


Durante seu período de recuperação e sem recursos financeiros, o que a ajudou, foi que morava em um quarto nas dependências de uma igreja na cidade, onde o valor do aluguel era muito mais barato que um aluguel normal. Eliana passou dois meses de cama e, nesse tempo, escreveu um livro sobre sua vida chamado ‘Vestes Rasgadas’. Hoje, ela mora em Craiova e trabalha como motorista de aplicativo para se sustentar e, ao mesmo tempo, organiza grupos de oração. Em seu trabalho de motorista, ela também tenta usar seu espaço para as missões. Ela oferece para seus passageiros um chocolate e uma cartinha com a palavra de Deus, para aqueles que querem ouvir. Enquanto motorista, ela também enfrentou o machismo no país. “Não respeitam, te convidam pra sair na cara de pau, sendo casada ou não casada [...] ‘Não tem problema não, se você quer ser discreta, a gente é discreto’.”, comenta ela.


Eliana diz não ter certeza por quanto tempo ficará na Romênia. “Deus falou que tinha algo para fazer aqui, nós somos ferramentas nas mãos dEle, por quanto tempo… eu não sei”. Porém, a experiência da Eliana lhe trouxe muitos aprendizados e se pudesse há 20 anos, a missionária revela que seu conselho para si mesma mais jovem seria “Não perca tempo. Vai nesse caminho que você entendeu, não se preocupe com outras coisas, não se afaste do caminho de Deus, continue”.


 

Atualizado: 20 de jul. de 2022


ree
Juliana trabalha com leasing de carros e nas horas vagas, desenha roteiros de viagem. Foto: Gabriela Abreu

Livre e espontânea pressão é a frase que Juliana Gehring, nascida em São Paulo, utiliza para começar sua história. A escolha de se mudar para a Romênia começou quando conheceu seu marido, Franco, pelo Orkut. Na época, ele morava em Bruxelas na Bélgica e mesmo a distância, se apaixonaram e, no retorno dele ao Brasil, Juliana engravidou. O casal continuou com o sonho de voltar para a Europa e, por Juliana possuir a cidadania alemã, tornava o processo mais fácil.


Em 2015, Franco, junto a um amigo, teve a ideia de abrir uma churrascaria na cidade de Bucareste, capital romena. Juliana comenta que o casal nunca tinha pisado na Romênia e mal sabiam achar o país no mapa. Ainda assim, “a gente que não tinha nada, vendeu tudo”, e viajaram em Março do mesmo ano. A família de Juliana questionou sua decisão principalmente por conta de sua filha, que na época tinha apenas quatro anos.


Alguns meses após a chegada do casal na Romênia, perceberam que o restaurante não iria decolar tão rápido quanto esperavam. Muitas de suas economias estavam sendo gastas em custos básicos de aluguel e comida e, por isso, Juliana decidiu procurar um emprego. Ela descobriu um mercado para pessoas que falam português e passou a trabalhar no Tripadvisor, com moderação do conteúdo do site. Insistiram por mais cinco meses no negócio e, ao perceberem que não funcionou, desistiram. Entretanto, decidiram ficar na capital romena, pois as oportunidades de trabalho eram melhores que no Brasil. Juliana descreve que os principais motivos de permanência no país foram o salário e a segurança. “A gente chegou em Março e no primeiro natal fizemos a nossa primeira viagem na Europa, para Vienna. No Brasil, a gente mal conseguia colocar gasolina no carro pra visitar a nossa familia”.


Juliana, Franco e sua filha Luiza na Aústria, sua primeira viagem pela Europa. Fotos: Juliana Gehring/Arquivo Pessoal


A saudade de casa não é algo que aperta o coração de Juliana. Ela comenta que “não sinto falta nenhuma da minha vida no Brasil”. Esse sentimento se dá principalmente porque, em Curitiba, onde morou um ano antes de ir para a Romênia, sua rotina não permitia que passasse tanto tempo com sua filha. Ela levava até duas horas por dia para chegar e voltar do trabalho e, precisava pedir ao seu marido para buscá-la no trabalho caso ficasse tarde ou era perigoso voltar para casa. Para ela, a vida na Romênia compensa estar longe da família. “A gente aprende a viver com essa saudade, sabe?”.


Durante seu período de vida no estrangeiro, Juliana percebeu que muitos brasileiros vieram para fora com a cabeça presa ao Brasil. Ela comenta que não acha esse comportamento saudável, pois a pessoa se condiciona a uma vida e não aproveita o presente. Durante a faculdade, ela morou em Londres e conheceu pessoas que não sabiam falar inglês e viviam na cidade apenas com o seguinte pensamento: “Trabalha, trabalha, pega o dinheiro e manda pro Brasil”. Já para ela, quando decidiu vir para a Romênia, sabia que precisava vir de coração aberto a uma nova cultura. De primeira, achou o idioma romeno parecido com o português e a culinária similar com a que tinha no Sul. Como Juliana morou em Santa Catarina por 15 anos, não enfrentou grandes choques culturais. “Vamos pra lá ter uma vida melhor e uma vida lá. Mas vejo muita gente que vem pra cá [Romênia] e a cabeça fica lá [no Brasil]. Só quer comida de lá, só quer conhecer gente de lá, só fica saudoso com tudo o que tem lá… Alguém te amarrou no avião?”


O trio em suas viagens pela Romênia. Fotos: Juliana Gehring/Arquivo Pessoal


Com a sua experiência de vida na Inglaterra, Juliana aborda que, na Romênia, ser brasileiro é um diferencial no mercado de trabalho. “Em Londres, ser brasileiro não é vantagem, você vai ter que esfregar um tanto de privada, carregar um tanto de bandeja em restaurante se você chegar de mala e cuia do jeito que eu cheguei. Por mais que você fale inglês, você é mais um brasileiro”. Esse fato ocorre pela comunidade de brasileiros na Inglaterra, de acordo com o Ministério de Relações Exteriores do Brasil, ser composta por pelo menos 200.000 pessoas.


Juliana trabalha com leasing de carros e, em seu cargo atual, gosta mais do que faz do que no início do trabalho. No começo, sua motivação era muito baixa, já que sua paixão é viagem e turismo. Como forma de balancear sua motivação, ela fez um curso online de Travel Design, para aprender a fazer roteiros de viagem personalizados. Formada em Turismo, o curso deu um complemento para ela iniciar um novo projeto nas horas vagas. Apesar de não ser sua principal fonte de renda, “é uma forma de fazer uma coisa que eu gosto, para balancear com o trabalho que faço todos os dias”. Ela oferece serviços de consultoria, desenho de viagem e concierge para quem se interessa em viajar para a Romênia.


Ao se mudar para a terra do Drácula, o casal já tinha em mente que esse não seria seu destino final, mas precisavam juntar dinheiro para a próxima aventura. Cogitaram Inglaterra, Alemanha, Holanda, Espanha e Bélgica como opções, mas precisavam esperar pelo menos um semestre, por conta do período escolar de sua filha. Com a chegada da pandemia, os planos foram pausados e hoje Juliana se sente satisfeita com a vida no leste europeu. “Nada que eu planejei aconteceu do jeito que eu planejei, aí hoje eu já não planejo muito pra frente, desde que a gente consiga dar a melhor vida para ela [sua filha], segurança, conforto, viajar pra onde a gente quiser”.


 
2

Histórias

© 2022 por Gabriela Abreu

bottom of page