Eliana Torres: a missionária
- Gabriela Abreu Bustamante
- 19 de jul. de 2022
- 4 min de leitura
Atualizado: 24 de out. de 2022

Eliana Torres tem 46 anos e é missionária na igreja cristã protestante e motorista. Sua trajetória é diferente de todas as histórias contadas aqui até então. Porém, o fator decisivo de sua trajetória foi o relacionamento que construiu com Deus. Quando pequena, Eliana questionava o porquê de todas as coisas. “Eu queria saber por que as coisas existiam, eu tinha curiosidade como toda criança. E a minha mãe falava que tudo foi Deus quem criou”. Mas assim como toda criança, ela não entendia o que era esse Deus até completar seus 21 anos quando as respostas fizeram sentido para ela.
Aos 20 anos de idade, ela foi diagnosticada com hipertireoidismo e, na época, precisou tomar nove comprimidos por dia apenas para sustentar seu coração. Em meio a tantos anseios, em uma de suas orações, pediu a Deus que acabasse com sua vida, mas teve uma visão que mudou seu trajeto. Daquele dia em diante, pediu a Deus que não fosse levada por ele ainda e que dedicaria mais tempo a sua fé. Foi nesse período que ela encontrou a Igreja. Eliana comenta que antes de alcançar a vida missionária, sua conexão com a igreja sofreu altos e baixos. Entretanto, ela voltou e se firmou na igreja aos 36 anos, quando encontrou a igreja Videira, uma igreja em células. Aos 42 anos, após ter sido desligada de seu emprego, surgiu na igreja as missões em Roma, na Itália, uma oportunidade para pregar a palavra de Deus em outro país. Após uma experiência no Vaticano, ela teve certeza do seu chamado e propósito e que gostaria de fazer aquilo para o resto de sua vida. O que ela ainda não sabia era que seu destino final não era nas terras italianas, mas sim, nas romenas.
Após retornar da Itália, tentou aplicar para o visto e foi surpreendida quando o mesmo foi negado. Na célula em que fazia parte, havia um grupo que orava pela Romênia e estavam se preparando para viajar ao país. Eliana foi convidada a se juntar a eles para orar e decidiu pesquisar mais sobre a cultura do país. Nessas pesquisas, deparou-se com o grupo no Facebook de brasileiros na Romênia e encontrou uma oportunidade de emprego. Ao divulgar para os outros membros do grupo de oração, ninguém se encaixava na oportunidade, exceto ela mesma e mais uma moça que tentou, mas não foi aprovada. Então em conversa com seu pastor, passou a considerar o país como uma alternativa.
Eliana veio a Romênia com o objetivo de ser missionária, porém precisava de um emprego para oferecer o visto e mantê-la lá. Foi por isso que aceitou a oportunidade de trabalhar em uma pâtisserie na cidade do Județ de Piatra Neamt. O que ela não esperava era que após duas semanas, seria demitida com a justificativa da chefe de que “os produtos brasileiros não foram bem aceitos na Romênia”. Como forma de ajudar Eliana a permanecer no país, por indicação da antiga chefe, foi para Iasi para trabalhar em outra confeitaria, dividindo o apartamento com duas outras brasileiras. Quando questionada sobre quais foram os maiores desafios de se mudar para a Romênia, sua resposta foi: morar com duas brasileiras e a exploração no trabalho. O estilo de vida das duas mulheres era completamente diferente do seu e muitas das vezes elas voltavam para casa embriagadas. “O contexto delas foi muito difícil pra mim. Era algo fora do padrão”.
Em relação à exploração no trabalho, ela fala que isso se deu principalmente por ser estrangeira. “Quando você tá num país estrangeiro, você sempre será estrangeiro”, explica. “Infelizmente tem pessoas que não respeitam. Vão te ver como mão de obra barata, alguém que eles podem explorar. A minha maior dificuldade foi me sentir explorada. Sem ter respeito com a pessoa. Comer? Pra que comer? Não precisa parar pra comer.”
Após o fim de seu contrato, um pastor romeno lhe ofereceu uma oportunidade de emprego na cidade de Timisoara, há 17 horas de trem de Iasi. O próximo capítulo de sua vida começa com a ida para o Oeste da Romênia, para trabalhar em um clube em diversas funções, desde limpeza a ajudar na organização de casamentos. Com a chegada da pandemia, o clube pausou suas práticas e Eliana vivia apenas do auxílio do governo. Apesar de achar que a exploração teria acabado no emprego anterior, passou por mais uma situação quando a esposa do dono do clube lhe ofereceu um trabalho de empregada em sua casa, com a justificativa de que o auxílio do governo havia se encerrado e ela precisava voltar ao trabalho. Com receio de ficar sem o visto de trabalho e ter que voltar ao Brasil, Eliana aceitou a proposta e com uma casa de três andares para cuidar, agravou um problema sério que havia na coluna, a impossibilitando de andar e, consequentemente, trabalhar. Em meio a todos esses desafios, sua mãe lhe pediu várias vezes para retornar ao Brasil, mas ela comenta que decidiu ficar na Romênia por uma resposta simples: “Deus não falou para eu voltar”.
Eliana promovendo o seu livro 'Vestes Rasgadas', que conta os desafios enfrentados na Romênia. Foto: Eliana Torres/Arquivo Pessoal
Durante seu período de recuperação e sem recursos financeiros, o que a ajudou, foi que morava em um quarto nas dependências de uma igreja na cidade, onde o valor do aluguel era muito mais barato que um aluguel normal. Eliana passou dois meses de cama e, nesse tempo, escreveu um livro sobre sua vida chamado ‘Vestes Rasgadas’. Hoje, ela mora em Craiova e trabalha como motorista de aplicativo para se sustentar e, ao mesmo tempo, organiza grupos de oração. Em seu trabalho de motorista, ela também tenta usar seu espaço para as missões. Ela oferece para seus passageiros um chocolate e uma cartinha com a palavra de Deus, para aqueles que querem ouvir. Enquanto motorista, ela também enfrentou o machismo no país. “Não respeitam, te convidam pra sair na cara de pau, sendo casada ou não casada [...] ‘Não tem problema não, se você quer ser discreta, a gente é discreto’.”, comenta ela.
Eliana diz não ter certeza por quanto tempo ficará na Romênia. “Deus falou que tinha algo para fazer aqui, nós somos ferramentas nas mãos dEle, por quanto tempo… eu não sei”. Porém, a experiência da Eliana lhe trouxe muitos aprendizados e se pudesse há 20 anos, a missionária revela que seu conselho para si mesma mais jovem seria “Não perca tempo. Vai nesse caminho que você entendeu, não se preocupe com outras coisas, não se afaste do caminho de Deus, continue”.
%20(5).png)







Interessante ver os desafios dessas pessoas relatadas na materia, tão diferentes nas particularidades e nos perrengues passados, mas todas as histórias tem algo em comum, esse anseio de ter uma vida mais completa, mais cheia de significado.
Excelente matéria.