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Atualizado: 23 de jul. de 2022


Joyce e Robert são donos de um food truck de salgadinhos brasileiros no centro de Bucareste. Foto: Gabriela Abreu

Joyce é a descrição de um espírito viajante. Nascida em 1987 no Paraná, morou em diversas cidades do Brasil como Barbacena, Juiz de Fora, Niterói e, hoje, em Bucareste, na Romênia. A paranaense trabalhou dos 16 aos 27 anos em salões de beleza a fim de juntar dinheiro para financiar os custos de seus estudos. Após se graduar em Geografia, decidiu fazer um mestrado na UERJ, a Universidade Estadual do Rio de Janeiro, em biodiversidade com foco em unidades de conservação. Seus planos eram se formar para trabalhar como professora da faculdade, até que sua vida tomou um rumo diferente. Ela se casou e seu então marido conseguiu uma oportunidade com maior salário na Romênia. “Eu estava com uma pessoa e a pessoa decidiu que aqui era melhor financeiramente e… a segurança, né? Ele também morou no Brasil um mês, viu que era muito perigoso, ficou com receio”.


Apesar de a história de Joyce ter começado a partir dos sonhos de uma outra pessoa, foi ela quem escolheu ficar no país após seu divórcio. “A Romênia, para mim, dá condições financeiras melhores que no Brasil”, comenta. Além disso, assim como Larissa, a segurança também foi um fator fundamental na escolha de Joyce. Ela conta que sua mãe não quer que ela volte para o Brasil. “Ela vê que aqui é mais seguro. Ela fala 'não volta, não tá bom, o mercado tá super caro, tá tudo muito perigoso’.”.


No início, seus pais ficaram com medo da grande mudança, mas hoje em dia são os que mais apoiam sua permanência. Ela comenta que seus pais nunca saíram do estado, muito menos do país. Entretanto, ela sempre foi desprendida deles. “Todo tempo eu fui assim, fujona” e, por isso, tiveram uma reação positiva à sua mudança. Joyce mora na Romênia há seis anos e, até então, ninguém de sua família veio visitá-la.


“O Brasil nunca saiu de mim [...] Eu sei que ele tem defeito, mas aceito ele do jeito que é. Eu amo o meu Brasil”.

Mesmo quando a saudade de casa aperta, Joyce não se arrepende de ter tomado essa decisão. Hoje em dia, a geógrafa mudou de carreira e trabalha como engenheira de software e, nas horas vagas, gere seu food truck de salgadinhos brasileiros: o Hot Brazilian Snacks. Durante sua trajetória, após anos de estudo, ela entendeu que gostaria de ter um salário maior. Para gerar mais riqueza na Europa, decidiu acrescentar um diferencial em seu currículo e fazer um curso de programação. “Se não fosse o casamento, eu não teria feito nada disso. Por parte, sinto falta do que eu fiz lá [no Brasil]. Por outra parte eu cresci também. Não é fácil você fazer um curso de programação.”


A Romênia abriu muitas portas para a carreira de Joyce, por ser um grande polo para profissionais de tecnologia. De acordo com Cristina Lincaru do Instituto Nacional de Pesquisa para o Trabalho e Proteção Social em seu estudo ‘Juventude e mercado de trabalho na Romênia’, houve um crescimento de 40% durante 2011 a 2020 no número de pessoas contratadas na área de TI no país.“Meu Linkedin é cheio de mensagens todos os dias de oferta para trabalhar nessa área”, comenta Joyce. Em sua opinião, se estivesse no Brasil, isso não aconteceria. “Você não consegue se desenvolver muito, mas aqui você consegue”. O que mais chama sua atenção no trabalho é a possibilidade de trabalhar remoto, o que facilitou que ela investisse em mais um sonho: ter seu próprio negócio.


Joyce trabalhando em seu food truck, localizado na Piata Unirii. Foto: Gabriela Abreu

A ideia de criar um food truck para vender salgadinhos surgiu em parceria com seu sócio, Robert, que também pensava em investir nisso. Ele é romeno, mas, em visita ao Brasil, pensou que seria uma ótima ideia trazer as delícias brasileiras para o paladar dos romenos. Eles possuem sua própria cozinha industrial e compraram todas as máquinas do Brasil. Ainda não é claro se o investimento está rendendo, por ser um projeto de pelo menos dois anos para gerar lucro. Entretanto, tem sido uma experiência muito legal para Joyce, pois se sente privilegiada de poder trazer os salgadinhos brasileiros para a Romênia. Os romenos que passam pelo food truck têm olhares curiosos e acabam se surpreendendo com o sabor da comida brasileira. Para a dona do negócio, essa experiência também ajuda na saudade de casa, já que, para ela, “o Brasil nunca saiu de mim [...] Eu sei que ele tem defeito, mas aceito ele do jeito que é. Eu amo o meu Brasil”. Quem sabe depois de comer coxinha e bolinha de queijo, os romenos também entenderão um pouco do que é esse sentimento.

 

Larissa Cardoso, 32 anos, conheçou o marido romeno através do circo. Foto: Gabriela Abreu

“O amor, né?”. Foi assim que Larissa Cardoso, mãe da Giovanna e da Maria Lara, começou a contar sua história. A sua história começou em 2011, quando o circo Ringling abre audições para bailarina no Rio de Janeiro. Larissa é formada em dança e viu no circo a oportunidade de explorar algo novo. Ela não só fez isso como também encontrou o amor. Marius, seu marido, é romeno e também fazia parte da trupe. Em 2011, durante uma turnê nos Estados Unidos, eles se conheceram. “A gente se olhou e se gostou”, disse ela com um sorriso no rosto.


Hoje em dia, ambos não estão mais ativos no circo, devido à pandemia de COVID-19. “Com o tempo, o corpo não permite mais. Quando você trabalha com o corpo, é um pouco mais complicado. A gente parou por motivos do COVID-19. A comunidade circense sofreu muito com isso”. Ela comenta que até tentaram continuar o trabalho online, mas sem muito sucesso.


A decisão de construir sua família na Romênia veio gradualmente e em 2016 se mudou para o país. Larissa comenta que “as coisas no Brasil são difíceis, aqui [na Romênia] também. Então a gente pensou também na segurança. Por ele sendo homem e tudo mais, a gente achou que aqui seria mais fácil para ele trabalhar e fazer as coisas enquanto eu cuido das crianças. [...] Do Brasil, tudo é mais complicado e distante.” Apesar de não se arrepender da decisão, morar a 9.000 quilômetros de casa não é fácil e quando a saudade de casa aperta, é difícil segurar. Entretanto, a família de Larissa sempre apoiou que ela seguisse os seus sonhos. “Eu sinto muita saudade da minha mãe, é muito difícil… mas eles aceitam porque pra minha mãe o que sempre importou é a nossa felicidade. Se eu tô feliz, ela tá feliz e é o que eu passo pras minhas filhas.


Larissa, Marius e Maria Clara durante uma apresentação do circo. Foto: Larissa Cardoso/Arquivo Pessoal


Dentre os desafios encontrados na Romênia, o que mais chamou a atenção da bailarina foi a mentalidade. Do ponto de vista racial, social e de classe, ela os considera bastante atrasados. Larissa usou como exemplo uma situação que se passou com sua filha mais velha, na escola. Maria Lara tem 5 anos e um dia perguntou à mãe “Por que só a gente é assim?”. A mãe garantiu que dentro de casa, fosse ensinado para suas filhas que não existem diferenças entre os seres humanos e o que realmente importa é o seu caráter e personalidade. Entretanto, nem sempre é possível controlar tudo o que as filhas presenciam na escola. Larissa conta que um dia sua filha chegou da escolinha com uma dúvida: “Mãe, hoje a professora leu uma historinha e tinha um bichinho que era diferente”. A professora, ao contar a história, usou a Maria de exemplo. “Olha a Maria, ela é do Brasil, tem cabelo cacheado, é moreninha mas a gente não tem que fazer diferença nela”. Larissa foi à escola discutir com a professora sobre a situação, pois não havia necessidade de abrir esse assunto. No momento em que colocamos o outro como diferente, ele se torna diferente.


"Se eu tô feliz, ela tá feliz, e é o que eu passo pras minhas filhas.

Apesar desses desafios, ela não se arrepende. Larissa nasceu em Vila Isabel, no Rio de Janeiro e ouve sempre de sua família o quão perigoso está o bairro. Em fevereiro de 2022, o Banduol produziu uma matéria para falar sobre a segurança do bairro. De acordo com o site, os moradores afirmam que os assaltos se tornaram mais frequentes na região. São também trazidos os seguintes dados: “de acordo com dados do Instituto de Segurança Pública, na região do 6º BPM (Maracanã, Praça da Bandeira e Tijuca, Alto da Boa Vista, Andaraí, Grajaú e Vila Isabel), o indicador estratégico de roubo de rua aumentou mais de 40% em dezembro de 2021, quando comparado com o mesmo mês de 2020.”. Ela se entristece com essa realidade, pois ama muito seu lugar de criação, mas a segurança de sua família vem sempre em primeiro lugar.


E com isso, a segurança se torna a palavra chave da história de Larissa. Ela veio à Romênia em busca de um ambiente que pudesse trazer esse sentimento para ela e sua família.

 

Atualizado: 16 de nov. de 2022

Conheça o por trás da grande reportagem "Brasileiras na Romênia" e o que me motivou a escrever essas histórias.

Cidade de Cluj-Napoca, considerada o coração da Romênia. — Foto: Gabriela Abreu

A resposta da pergunta inicial não é simples. Há um ano, para mim seria uma folha em branco. Hoje, se tornou o gancho que traz milhares de memórias.

A HISTÓRIA ROMENA

A Romênia é um país localizado no sudeste da Europa. Seu principal papel na história do leste europeu é de intermediadora dos conflitos, muitas vezes sendo carregada pelos mesmos até o fim. Isso acontece pois a Romênia, durante toda sua história, foi conquistada por aqueles com maior poder aquisitivo, precisando sempre se adaptar a uma realidade diferente. O país foi dominado por Hungáros, Austríacos, Turcos e Russos, com destaque ao Império Otomano que, apenas após entrar em guerra com a Rússia, perdeu o território em 1878.

Após a Segunda Guerra Mundial, a Romênia foi colocada sob a esfera de influência soviética em 1947 com a implementação do regime comunista. Não foi até 1989 que o povo romeno se rebelou contra o governo em um movimento conhecido como a Revolução Romena, marcando o início de uma nova era para o leste europeu.

Até os dias de hoje, é possível observar o quanto a opressão sofrida pelo país desde o início de sua história reflete no comportamento da população. Durante a minha estadia na Romênia, me interessei muito pela história do país e pude observar que o povo romeno não tem um sentimento de patriostismo, já que muitos dos nativos não gostam da Romênia e desejam construir suas vidas no oeste. Em minha opinião, um país que por muito tempo não foi permitido de ter uma identidade e que sempre esteve oprimido por autoritaristas, não teve a oportunidade de construir uma identidade sólida a ser admirada pelo seu povo.


A MINHA TRAJETÓRIA NO PAÍS

Era setembro de 2020 quando decidi procurar por alguma oportunidade de intercâmbio. Desde pequena, esse era o meu grande sonho. Aos 15 anos, era o sonho americano. Aos 20 anos, tornou-se o sonho europeu. Porém, todo jovem que pensa em viajar para Europa tem em mente Reino Unido, França, Espanha, Portugal… mas o meu sonho se tornou realidade com a Romênia. Uma de minhas amigas fazia parte da AIESEC, organização que promove intercâmbios para jovens de 18 a 30 anos, e perguntei a ela se existia alguma oportunidade na Europa. Em seguida, sua resposta foi: “Você já ouviu falar na Romênia?”. Naquele momento, me senti a pessoa mais ignorante do mundo. A minha resposta foi “Não. O que tem lá?”. Depois disso, pesquisei na internet onde ficava o país e o primeiro pensamento foi um grande sinal de alerta - nunca que eu viajaria para um país a nove mil e novecentos quilômetros de distância de tudo o que eu conheço.

Vou avançar um pouco no tempo e contar que no final das contas, um ano e meio após essa conversa, acabei morando em Bucareste, capital da Romênia, por um ano. Como cheguei até esse momento pode ser uma história para mais tarde, mas o porquê decidi ficar por um ano é a que vale a pena contar.



Quando cheguei na Romênia, em junho de 2021, fui tomada por um sentimento de medo. Estava longe de casa, da minha família, dos meus amigos. Não conhecia ninguém além das pessoas com quem iria trabalhar junto no ano seguinte. Porém, esse sentimento se disseminou de forma rápida. Quando vi, eu já estava indo ao supermercado sozinha e falava boa tarde em romeno para a moça do caixa. Uma das grandes surpresas que tive na Romênia foi a familiaridade do idioma romeno com o português. Em pouco tempo, já estava habituada a ouvir as pessoas falando a língua nas ruas e até aprendi algumas frases.

Mas como nem tudo são flores nessa vida, também enfrentei alguns desafios por ser estrangeira. A minha principal forma de comunicação era com o inglês e nem sempre conseguia me comunicar com o povo local. Por sorte, estava sempre rodeada de amigos que me ajudaram com a tradução, mas em muitos momentos fui ignorada ao pedir ajuda na rua. Além disso, no meu tempo aqui, criei uma coletânea de “reação dos romenos ao ouvir que sou do Brasil”. Eu poderia escrever um livro sobre elas e prometo que vocês iriam se divertir muito. Desde reações engraçadas como motoristas de Uber começarem a dançar samba ou enfermeiras perguntando o que eu achava do Carnaval, até reações machistas de que a melhor coisa do Brasil são as mulheres e seus corpos bonitos (não que seja mentira, mas ao ser mencionado por homens de 40 anos que acabara de conhecê-la, passa a ser sexista). E não posso deixar de mencionar sobre todos os jogadores de futebol brasileiros conhecidos por lá: Neymar, Ronaldinho, Pelé e por aí vai. Fiz o possível para que essas situações não me abalassem tanto.


Juliana Gehring, uma das entrevistadas. Foto: Gabriela Abreu/Arquivo Pessoal

Ao mesmo tempo em que tudo isso acontecia, também tive a oportunidade de conhecer brasileiras que viviam por aqui e discutir sobre as diferenças que observamos entre o Brasil e a Romênia. Foi através de uma dessas conversas que decidi escrever sobre essas histórias, mas não são histórias quaisquer. Decidi fazer o recorte de mulheres brasileiras vivendo na Romênia, pois percebi que, enquanto mulheres, somos fortes, não importa onde estivermos. Além disso, passamos por desafios muito semelhantes e por eu ter me encontrado em situações muito semelhantes às delas, achei essa a melhor decisão a se fazer.


"Enquanto mulheres, somos fortes, não importa onde estivermos."

A Romênia me recebeu de braços abertos e foi o berço do maior crescimento pessoal que já tive. Foi também o jardim das primeiras vezes. Primeira vez viajando para fora do Brasil sozinha, primeiro relacionamento com um estrangeiro, primeira vez vendo a neve. Fui desafiada em todos os âmbitos: pessoal, emocional, espiritual e profissional.


Porém eu fui apenas uma de muitas mulheres brasileiras que escolheu a Romênia como o destino que mudaria suas vidas.


Contarei cinco histórias e espero que por meio delas, seja possível entender o impacto que uma escolha pode ter em sua trajetória.

 
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Histórias

© 2022 por Gabriela Abreu

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